Nutrição - Produção de leite a pasto: manejo do pastejo é fundamental para manter a produção

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O Brasil possui uma grande proporção de seu rebanho leiteiro mantido em sistemas que exploram basicamente pastagens. Estas pastagens, que podem ser nativas ou cultivadas, são a principal e, em alguns casos, a única fonte de alimento para esses animais.

Como é sabido, um sistema de produção somente atingirá o seu potencial produtivo caso não existam limitações quanto aos fatores de produção. No caso da produção de leite, como aproximadamente dois terços dos custos de produção advém da alimentação, em se tratando de sistemas a pasto, as pastagens são de fundamental importância para que o sistema funcione de forma economicamente viável.

O manejo das pastagens pode aparentar ser simples, mas à medida que se atenta aos detalhes da produção, vemos que não é exatamente tão elementar assim. Entretanto, manejar de forma adequada as pastagens também não é laborioso ao ponto do produtor desistir por achar ser muito complicado.

É muito comum no Brasil encontrarmos fazendas com pastagens de baixa capacidade de suprir as necessidades dos animais. Menos comum, mas também podemos encontrar fazendas onde a oferta de forragem é alta, e portanto, o aproveitamento do pastejo é baixo. Por outro lado, também encontramos fazendas com manejo adequado de suas pastagens, respeitando os limites da planta sem causar restrições aos animais.

Um bom produtor de leite é, acima de tudo, um excelente profissional para manejar pastagens, quer seja para a produção de forragem, quer seja para a transformação da massa vegetal produzida em produto animal, fazendo assim com que grande parte do que foi produzido seja consumido pelos animais. Assim, de nada adianta uma grande produção de massa vegetal se ela não estiver manejada em um contexto que permita ser convertida em leite com alta eficiência, eficiência esta muito intimamente relacionada com características intrínsecas às pastagem e aos animais.

No que se refere às pastagens, o pastejo de uma planta na idade correta, com valor nutritivo adequado é de crucial importância. No que se refere aos animais, respeitar o seu ritmo circadiano e manter a sua rotina são aspectos que nem sempre são observados. Assim, torna-se bastante interessante entender o comportamento ingestivo de vacas leiteiras em lactação a fim de propiciar-lhes um manejo no qual seja dada ao animal a oportunidade de exercer todas as suas atividades diárias sem a necessidade de que o mesmo faça adaptações no seu comportamento padrão.

Além das atividades de rotina impostas pelo homem, como transitar por corredores, consumo de concentrado, permanência em sala de espera, ordenha, etc, as vacas precisam distribuir de forma interdependente e ordenada, atividades de pastejo, ruminação e descanso, ao longo do dia (ritmo circadiano). Nota-se então que a atividade de pastejo é de extrema importância, pois ela é conflitante com o interesse de outras atividades que não podem ser parcialmente ou integralmente suprimidas.

Pelo exposto, nota-se que existem manejos onde os animais não necessitam de adaptações em seu ritmo, e portanto estão expressando o seu potencial genético. Por outro lado, existem manejos onde existe algum tipo de limitação ao comportamento ingestivo, mas que pode ser absorvido devido à flexibilidade dos animais; e, existem manejos onde tais limitações são tão intensas que os mecanismos de ajuste dos animais não são capazes de equacionar o problema, sendo então a resposta produtiva dos animais prejudicada. Um exemplo para uma situação assim é oferta de forragem inadequada e tempo insuficiente para as vacas exercerem a atividade de pastejo.

Estudo recente conduzido na Europa mostrou que vacas consumindo pastagem de altíssima qualidade, com 86,3% de digestibilidade, 24,2% de Proteína Bruta e apenas 34,6% de Fibra em Detergente Neutro, precisam de no mínimo 6 horas de pastejo diárias, necessariamente divididas em dois períodos de pastejo, um pela manhã e o outro à tarde/noite.

No Brasil, um país tipicamente tropical, é praticamente impossível termos um pasto cultivado com plantas de clima tropical com essa qualidade. Nas melhores situações conseguimos, de maneira geral, forragem com cerca de 60% de digestibilidade, 16% de proteína e 65% de fibra. Notem que se trata de um pasto bastante diferente do citado no exemplo europeu. Nossas pastagens por serem cultivadas com plantas de clima tropical, possuem mais carboidratos estruturais, principal responsável pelo menor valor nutricional. Assim sendo, vacas pastejando tais forrageiras irão necessitar mais de 6 horas de pastejo ao longo de 24 horas. Vários estudos conduzidos no Brasil relataram tempo de pastejo variando entre 8 e 12 horas.

Os nossos estudos apenas tem descrito o tempo de pastejo, em situações distintas, onde este tempo é uma consequência de um manejo já adotado. Assim, sistemas de lotação rotacionada, com capim de boa qualidade, o tempo de pastejo tende a ser próximo de 8 horas. Por outro lado, sistemas onde ocorre algum tipo de limitação ao pastejo, esse tempo tende a ser próximo de 12 horas.

Analisando os dados de tempo de pastejo relatados na literatura nacional, e suas respectivas produções de leite, dois fatores ficaram em evidência, a saber:

1) Tempo de pastejo superior a 8,5 horas, especialmente nos manejos onde os animais caminham longas distancias para ir à ordenha e para as áreas de cocho e descanso, a produção de leite está aquém do potencial.

2) Nem sempre se respeita os horários nos quais os animais preferem exercer a atividade de pastejo, dada as condições ambientais.

Considerações finais

A produção de leite somente será próxima do potencial do sistema adotado quando for dada aos animais condições de consumirem alimentos em quantidade e qualidade suficiente para fornecer nutrientes que suportem o nível de produção desejado. Assim, nos sistemas produtivos que exploram basicamente pastagens, a colheita de pasto feita pelo animal não pode sofrer limitações. A qualidade do capim, a taxa de lotação, disponibilidade de forragem, a disposição e formato dos piquetes, aguadas, sombras e instalações, devem ser de maneira que facilitem o comportamento ingestivo dos animais.

Vacas leiteiras da raça Holandesa, e embora mais rústicas, mas também os seus cruzamentos, assim como as vacas da raça Jersey e Pardo Suíço, não conseguem pastejar durante as horas mais quentes do dia. Como agravante, normalmente a ordenha da manhã conflita com o pastejo matutino. Assim, seria interessante que a ordenha da manhã fosse antecipada, para que no alvorecer, os animais já estivessem sendo encaminhados para o pastejo. A ordenha da tarde também não deve se estender muito além do crepúsculo, momento este que também estimula o consumo de forragem.

Sempre que possível, dar preferência para manejar as vacas mais produtivas. Vacas de maior produção normalmente consomem mais alimento, e portanto, precisam de mais tempo para se alimentar. Assim, evite permanecer com as vacas de alta produção retidas em curral de espera enquanto outros animais menos produtivos são ordenhas ou alimentados no cocho.

Por fim, vacas a pasto precisam caminhar longas distâncias a procura de alimento. Logo, os seus cascos precisam necessariamente estar em boas condições para realizarem intenso caminhamento pelo pasto. Práticas como pedilúvio e casqueamento são indispensáveis.

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