O temperamento do ordenhador influencia a produção de leite das vacas

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As atividades do setor primário apresentam sua rentabilidade reduzida e a atividade pecuária leiteira e de corte, vêm sofrendo achatamento de sua lucratividade em função de aumento do preço dos insumos que não vêm sendo acompanhado pelo preço pago ao produto. Para citar um exemplo, o preço dos insumos aumentou, de 2003 a 2007, cerca de 62% e a carne, no mesmo período, apenas 27%. Assim, a redução dos custos de produção é fundamental para a sobrevivência do produtor.

Uma das formas de melhorar a rentabilidade passa pelo entendimento e o respeito ao comportamento dos animais e a escolha de manejadores mais comprometidos com a atividade que desempenham. Procurar-se-á, através deste texto, demonstrar a importância da relação entre funcionários e animais na eficiência produtiva da propriedade.

O estudo do comportamento, bem como das necessidades de bem-estar dos animais, podem melhorar o desempenho produtivo dos mesmos, manejados em situações e ambientes modificados pelo homem. O entendimento do comportamento e do bem-estar pode maximizar a eficiência produtiva. Isso pode ser obtido através do treinamento e educação dos homens que manejam animais, pois esta capacitação pode produzir bons resultados em relação ao bem-estar animal, a baixos custos.

O ser humano pode causar medo aos animais em função do seu tamanho e sua tendência a fazer movimentos rápidos e imprevisíveis. O efeito do medo se reflete, normalmente, na redução da produção. Estas informações são corroboradas por Silva et al. (2005), que afirmam que a interação vaca leiteira-ordenhador na ordenha influencia o comportamento, a produtividade e o bem-estar animal.

Todavia, são poucos os trabalhos comparando interação entre ordenhadores e vacas leiteiras. Desta forma, Marques et al. (2007) desenvolveram um estudo para avaliar a interação de dois ordenhadores, ordenhando alternadamente, o mesmo grupo de vacas sobre a produção e tempo de ordenha. Este estudo foi realizado em uma pequena propriedade leiteira (8,2 ha) do município de Nova Esperança, Noroeste do estado do Paraná. Foram utilizadas 11 vacas em fase intermediária de lactação, com produtividade média de 14 litros, que foram ordenhadas, com ordenhadeira mecânica com balde ao pé, duas vezes ao dia, em sala de ordenha com piso de cimento e cocho de alimentação, acesso de duas vacas por vez e espaço de quatro m2 para cada animal.

A ordenha foi realizada por dois ordenhadores treinados para utilizar o equipamento, que se alternavam. Cada ordenhador fazia a ordenha da tarde de um dia e na manhã do dia seguinte e o outro a ordenha da tarde e da manhã do outro dia. Desta forma, tentou-se retirar o efeito de um ordenhador em relação à produção subsequente.

Durante a ordenha, os animais eram alimentados com ração concentrada (farelo de soja, milho, farelo de algodão e prémix mineral - vitamínico) na proporção de um kg para cada três litros de leite produzido acima de 10 litros. O período total de avaliação foi de sete dias, sendo o primeiro destinado a observações preliminares e os seis restantes foram para coleta de dados. As observações foram diretas com coletas contínuas, avaliando as interações entre o ordenhador e as vacas leiteiras, quando conduzidas do piquete para a sala de espera e desta para a sala de ordenha e, por último, o processo de ordenha propriamente dito.

Foram anotadas as ações positivas e negativas do ordenhador em relação às vacas e o comportamento das mesmas. Alem destas, também foram anotadas as produções individuais dos animais nas diferentes ordenhas e o tempo de ordenha por vaca e total. Os dados obtidos referentes à produção de leite dos animais e o tempo utilizado nas ordenhas foram analisados estatisticamente.

A produção média de leite e o tempo médio utilizado na ordenha pelos ordenhadores estão demonstrados na Tabela 1.

Tabela 1. Produção media de leite e tempo médio utilizado na ordenha pelos ordenhadores.

A produção de leite foi superior (14,92 litros) para o ordenhador II em relação ao ordenhador I (13,50 litros), embora não tenha havido diferença, estatisticamente significante, para o tempo de ordenha que foram de 6,19 (6 min. e 11 seg.) e 5,84 (5 min. e 50 seg.) minutos, respectivamente, para o ordenhador II e I, ou seja, diferença foi de 21 segundos, conforme se observa na Tabela1.

Esta diferença de produção pode ser atribuída a interação ordenhador - vaca, pois o manejo nutricional e de rebanho foram mantidos e as observações foram feitas em dias sequenciais.

Os bovinos são altamente responsivos às ações realizadas com eles. Como foi observado por estudos anteriores, nos quais foi constatado que os animais reagiram positivamente aos tratadores que os tratavam com atitudes boas e negativamente às atitudes daqueles que usavam ferrões e atitudes indesejáveis. Desta forma, o ordenhador deve ter um comportamento adequado com os animais, ou seja, não é qualquer pessoa que pode desenvolver esta atividade. Pois, esta exige que o funcionário goste de animais, sinta prazer em estar com eles e tenha interesse em melhorar seus conhecimentos sobre o manejo e o tratamento com animais.

No trabalho de Marques et al. (2007), isto foi observado com o ordenhador II, que apresentou maior número de características desejáveis para um trabalhador com vacas leiteiras. Este ordenhador teve um timbre de voz mais baixo, nomeou e tateou os animais por mais vezes que o ordenhador I, este, por sua vez, teve mais atitudes agressivas, conforme se observa na Tabela 2.

Tabela 2. Número de observações de reação do animal à ordenha e ações positivas e negativas dos ordenhadores.

A reatividade a ordenha ocorreu naqueles animais com lesões nos tetos, com maior número de reações para os animais ordenhados pelo ordenhador II, possivelmente, por este ter um tempo 5,60% maior de ordenha em relação ao outro ordenhador e pelos animais se sentirem mais a vontade para expresar suas reações.

O ordenhador com perfil mais calmo influenciou positivamente a produção de leite, sem aumentar o tempo de ordenha dos animais. Isso contribuiu positivamente para a viabilidade econômica da atividade na propriedade, em aproximadamente, um salário mínimo ao mês (dados não publicados).

As informações supracitadas nos levam a pensar sobre a importância do manejo gentil com os animais de produção, uma vez que, este proporciona retorno econômico direto e indireto.

Gostaria de salientar que existe também uma dissertação de mestrado na UESB de Itapetinga - BA sobre este tema que será defendida ainda este semestre e trabalhos realizados pelo grupo do Prof. Paranhos da Costa da UNESP de Jaboticabal - SP.

Referências:

MARQUES, J.A., ROSA, L.J., CALDAS NETO, S.F. et al. Interação entre ordenhador e vaca, associado ao horário de ordenha, sobre a produção de leite. In: REUNIÃO ANUAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ZOOTECNIA, 44, João Pessoa:Paraíba. 2007. Anais... Goiânia. 2007.

SILVA, L.C.M.; ROSA, M.S. da; PEREIRA, A.C.F. et al. A qualidade da interação retireiro-vaca e o nível de bem-estar das vacas na ordenha: estudo de caso. In: REUNIÃO ANUAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ZOOTECNIA, 42, Goiânia:Goiás. 2005. Anais... Goiânia. 2005.

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