Como melhorar a eficiência reprodutiva de vacas em anestro - Capítulo III: uso de eCG
Roberta Machado Ferreira - Departamento de Reprodução Animal, FMVZ/USP
Pietro S. Baruselli - Prof. Titular da FMVZ-USP
Como vimos nos artigos passados, a vaca necessita de adequada quantidade de energia para suprir o metabolismo basal, o crescimento, a lactação, a manutenção da saúde e, ainda, a função reprodutiva.
Fêmeas bovinas durante o período pós-parto apresentam período variável de anestro. Esse período pode ser influenciado por diversos fatores, como a amamentação, o contato vaca-bezerro, a baixa condição corporal, as doenças puerperais, dentre outros, que podem acarretar em prolongamento do período de anestro dessas fêmeas.
Com base nestas observações, neste segundo artigo discutiremos o uso da eCG como ferramenta para diminuir problemas relacionados ao anestro pós-parto.
Uso da eCG
Estudos utilizando a eCG têm demonstrado aumento nas taxas de prenhez de vacas lactantes no pós-parto e que apresentam alta incidência de anestro. Em um desses estudos, no qual foi avaliada a condição ovariana dos animais tratados, constatou-se o efeito positivo da eCG, especialmente em vacas em anestro (Tabela 1).
Tabela 1. Taxa de prenhez à inseminação artificial em tempo fixo conforme classificação da funcionalidade ovariana de vacas Nelore lactantes tratadas com dispositivo intravaginal de progesterona (DP4) associado ou não ao tratamento com eCG na retirada do dispositivo (Dia 8; Adaptado de Baruselli et al., 2003)
Ainda, um estudo posterior (Baruselli et al., 2004) demonstrou o efeito do tratamento com eCG em função da condição corporal dos animais no momento do início do protocolo de sincronização da ovulação. Nesse experimento, analisou-se o efeito do escore de condição corporal (ECC) no início do tratamento (escala 1-5) sobre a taxa de concepção dos animais (Gráfico 1).
Como pôde ser notado, o tratamento com eCG somente aumentou a taxa de prenhez nos animais que apresentavam baixo ECC (≤ 3). Em animais com satisfatória condição corporal (> 3) não foi verificado efeito positivo do tratamento com eCG na taxa de concepção. Sabemos que a condição corporal está freqüentemente relacionada à ciclicidade. Assim, animais com boa condição corporal apresentam alta taxa de ciclicidade, o que dispensa o tratamento com eCG.
Gráfico 1. Taxa de concepção de vacas Nelore lactantes (n=1.984) tratadas com ou sem eCG no momento da retirada do dispositivo intravaginal de progesterona conforme o escore de condição corporal (Adaptado de Baruselli et al., 2004)
Complementarmente, um outro estudo avaliou o efeito da eCG em diferentes períodos pós-parto (PPP) de vacas Nelore lactantes submetidas a protocolos para IATF a base de progestágeno e estrógenos (Rodrigues et al., 2004). Os resultados mostraram que o tratamento com eCG, no momento da retirada do implante auricular de Norgestomet, aumentou a taxa de concepção após a IATF em vacas de corte recém-paridas (Gráfico 2).
Gráfico 2. Percentagem de vacas prenhes segundo o período pós-parto (PPP) e o uso de eCG (a,b no mesmo PPP, P < 0,05; Adaptado de Rodrigues et al., 2004)

Gráfico 3. Percentagem de vacas prenhes segundo o período pós-parto (PPP), escore de condição corporal e o uso de eCG (a,b,c no mesmo PPP, P < 0.05; Adaptado de Ayres et al., 2007)
Em conclusão, estes dados (juntamente aos dados apresentados nos dois capítulos anteriores) mostram que é possível melhorar a taxa de prenhez em vacas de corte com baixa condição corporal e/ou em anestro e antecipar o primeiro serviço pós-parto com a utilização de técnicas de manejo e/ou de fármacos em programas de sincronização da ovulação para IATF.
Vale ainda lembrar que o aumento da taxa de concepção em animais tratados com eCG e desmame temporário pode estar relacionada ao incremento na taxa de ovulação e/ou ao aumento das concentrações plasmáticas de progesterona no diestro do ciclo estral subseqüente à IATF, que pode melhorar o desenvolvimento embrionário e a manutenção da gestação.
Deve-se ressaltar que a IATF não é uma técnica milagrosa, e, portanto, não é capaz de emprenhar vacas que estejam com algum problema reprodutivo e/ou nutricional severo. É importante também registrar que, o escore de condição corporal utilizado isoladamente, não é a melhor ferramenta para tomada de decisão, pois deve-se atentar para o fato de que animais em boa condição corporal (ECC=3, por exemplo) que estejam perdendo peso rapidamente, ou ainda que estejam em pós-parto precoce, tendem a ter piores resultados quando submetidos a programas de IATF.

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