Cuidado com sucedâneos de custo muito reduzido: não existe almoço grátis!

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Com a chegada de novos produtos no mercado nacional e a possibilidade de preços de sucedâneos lácteos mais competitivos, a escolha de uma ou outra formulação para bezerros pode ser um desafio. A decisão no uso de sucedâneo deve se basear em seu custo por litro diluído, comparado ao preço do leite vendido à indústria, sua composição e a oferta de leite descarte na propriedade (muito embora isso venha sendo criticado e discutido), além de facilidade no manejo. No entanto, o ponto mais importante a ser avaliado é sem dúvida a composição do sucedâneo.



De maneira geral, para a adequada formulação de um sucedâneo, devem ser utilizados ingredientes que contenham carboidratos, proteínas e gorduras os quais o bezerro seja capaz de degradar. É exatamente neste ponto que algumas empresas pecam, fazendo grandes inclusões de ingredientes menos nobres de forma a baratear a fórmula. A seguir, são listados e discutidos alguns pontos importantes que devem ser considerados pelos produtores e técnicos para esta decisão.



Os primeiros pontos a serem considerados quando se avalia diferentes formulações são:



A idade do bezerro que será aleitado com este produto. Bezerros com menos de 3 semanas não tem o trato digestório pronto para digerir fontes de carboidrato e proteína de origem vegetal, como bezerros mais velhos o fazem;
Como o sucedâneo foi produzido;
Disponibilidade de água quente, no caso de ser necessária, para a diluição do produto;
Adequação dos ingredientes e taxa de inclusão dos mesmos um sucedâneo de boa qualidade deve apresentar em seu rótulo a lista de ingredientes, assim como os níveis de garantia em nutrientes. Normalmente, os produtos mais baratos são aqueles que não têm toda a proteína de origem láctea, devendo-se atentar para isso principalmente quando o objetivo for aleitar bezerros já a partir da primeira semana de vida.



A adequação do ingrediente é sem dúvida o ponto mais importante na escolha de uma formulação e que pode levar o sucesso ao completo insucesso e descrédito nesta tecnologia. É comum produtores e técnicos não acreditarem em bons desempenhos de bezerros aleitados com sucedâneos, principalmente devido ao desastre que foi sua utilização na década de 70. Nesta época, a maior parte das formulações tinha como fonte principal de proteína, a proteína da soja, e resultaram em altas taxas de mortalidade nos sistemas de produção em que foram empregados.



A seguir discutimos brevemente as fontes de nutrientes adequadas para um sucedâneo lácteo de boa qualidade:



Proteína



Os sucedâneos devem conter por volta de 20-22% de proteína, sendo a fonte protéica de origem láctea ou não. A decisão da adoção do tipo de fonte protéica deve se basear em sua digestibilidade, balanço de aminoácidos e ausência de fatores antinutricionais. As proteínas lácteas são as melhores fontes para bezerros jovens uma vez que apresentam alta digestibilidade (87-97%, dependendo da fonte), bom balanço de aminoácidos e ausência de fator antinutricional. Bezerros com menos de 3 semanas de idade devem receber formulas que contenham somente proteínas de origem láctea. Fontes de origem não-láctea podem reduzir a disponibilidade de proteína, além de causarem diarréias alimentares que reduzem o desempenho e aumentam as taxas de mortalidade. Sucedâneos com fontes não-lácteas de proteína também podem ser consideradas adequadas, no entanto, somente para bezerros com mais de 3 semanas de vida.



Uma fonte láctea muito comum nos sucedâneos é o soro de leite, um co-produto da fabricação de queijos. Na lista de ingredientes podem aparecer soro, soro desidratado, ou proteína concentrada de soro (em inglês, WPC). A diferença destes produtos é a quantidade de lactose e minerais removida na secagem ou desidratação do soro. Por exemplo, soro desidratado contém 12% enquanto o WPC contem 80% de proteína. Também existe uma diferença em termos de digestibilidade da proteína de acordo com o tipo de queijo produzido, as temperaturas de secagem, e outros processos de manipulação do soro.



As opções de fontes protéicas não-lácteas incluem proteínas da soja, farinha de soja, proteínas de trigo, batata e plasma animal. A proteína da soja tem baixa digestibilidade e conteúdo em aminoácidos. Além disso, assim como a farinha de soja, pode causar reações alérgicas intestino, reduzindo a disponibilidade de proteína para o bezerro e causando diarréias. Estas duas fontes de proteína são melhor utilizadas por bezerros com idade acima de 3 semanas. A proteína hidrolisada do glúten de trigo é de alta qualidade, econômica, e produzida a partir da farinha de trigo pela separação da proteína e do amido do glúten. Assim como as outras fontes não-lácteas de proteína, tem baixa digestibilidade em bezerros com menos de 3 semanas, mas é adequada para bezerros acima desta idade. No entanto, tem baixa fibra e cinzas, além de conter uma maior porcentagem de proteína quando comparada aos produtos da soja. Além disso, não apresentam fatores antinutricionais que podem causar reações alérgicas, responsáveis por reduzir o desempenho animal.



As proteínas de plasma são fontes únicas que contém albumina ativa e proteínas globulares. Tem um perfil em aminoácidos bastante interessante e valor nutritivo comparável ao leite desnatado e a caseína. O plasma animal é obtido pela centrifugação do sangue podendo ser de origem bovina ou suína. No entanto, já existem restrições no uso deste tipo de ingrediente na alimentação de ruminantes.



Energia



A energia de uma formulação é avaliada pelo nível de gordura que esta apresenta. A porcentagem de gordura de leite integral com base na matéria seca é de 30%. Os sucedâneos devem conter entre 10 e 25% de gordura bruta. Bezerros com menos de duas semanas não conseguem digerir fontes não-lácteas de gordura, de forma que sucedâneos com alta gordura láctea reduzem o risco de diarréias. No entanto, como a gordura de origem láctea tem alto valor comercial, fontes alternativas, como óleo de coco ou de palma. O óleo de coco é o que apresenta maior digestibilidade, mas quando é fornecido como única fonte pode resultar em diarréia e deficiência de ácidos graxos essenciais. Essas fontes de gordura devem sofrer processo de dispersão e homogeneização, com redução de tamanho de partícula de 3-4 m, para seu melhor aproveitamento. Pontos importantes na avaliação das fontes de gordura são o ponto de fusão (decisivo para que a homogeneização e a diluição do pó em água ocorram de forma adequada), o odor, e o perfil de ácidos graxos.



Fibra



A quantidade de fibra de uma formulação é um bom indicativo da inclusão de fontes de proteína de origem vegetal. Quanto maior a inclusão destas fontes, maior será o teor de fibra da fórmula. Os sucedâneos para bezerros com menos de 3 semanas de idade não devem apresentar mais que 0,5% de fibra bruta em sua composição.



Vitaminas e minerais



De acordo com o NRC (2001) os teores dos principais minerais e vitaminas devem ser: Ca: 1,0%, P: 0,7%,vitamina A: 9.000 IU/kg, vitamina D: 600 IU/kg, vitamina E: 50 IU/kg.



De maneira geral, a escolha de um sucedâneo não deve ser tarefa tão difícil quanto possa parecer. Avalie sua composição, que será decisiva no sucesso de sua adoção, seu custo e também o treinamento dos tratadores. Quando o produto tiver o custo muito reduzido desconfie e peça uma análise bromatológica, considerando principalmente os teores de fibra bruta e de amido. Lembre-se, não existe almoço grátis!



Referências:



DAVIS, C.L.; DRACKLEY, J. K. The development, nutrition, and management of the young calf. Ames: Iowa State University Press, 1998. 339 p.
WATERMAN, D.F.; MILLS, J. Evaluating Milk Replacer Quality. Professional Dairy Heifer Growers Association, Pre-Conference Calf Seminar Robert E. James, Virginia Cooperative Extension, 2005.
National Research Council. Nutrient requirement in dairy cattle. 7th ed. Washington : National Academy of Science, 2001. 381p.



Autores:

Carla Maris Machado Bittar


Doutora em Ciência Animal e Pastagens. Departamento de Zootecnia - ESALQ/USP
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Lucas Silveira Ferreira

Aluno de Doutorado em Ciência Animal e Pastagem - ESALQ/USP

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