Manejo alimentar visando reduzir acidose ruminal e laminite em vacas leiteiras
A acidose ruminal sub-aguda é um problema, de certa forma, predominante nos rebanhos leiteiros. Em vacas alimentadas com ração total, aproximadamente 25% das vacas certamente tem pH ruminal abaixo de 5,5. Isso compromete a perfeita digestão da dieta, uma vez que o pH ruminal é grandemente uma função de balanço entre a produção de ácidos graxos voláteis provenientes da fermentação de carboidratos, sua neutralização pelas tampões salivares e dietéticos, e sua remoção pela absorção através da parede do rúmen, ou passagem pelo rúmen.
A acidose é causada pelo consumo de alta quantidade de carboidratos ruminalmente disponíveis, baixa quantidade de fibra efetiva, ou ambos. Laminite, uma inflamação asséptica das camadas dérmicas dentro do casco e é a maior causa de manqueira de vacas leiteiras, relacionada a acidose ruminal.
Porém, não podemos nos esquecer de que vacas leiteiras de alta produção terão inevitavelmente algum grau de acidose, dadas as características da dieta para esse tipo de animal, e o comportamento fisiológico e ingestivo da vaca. Assim, excelente manejo do cocho e investimento em conforto animal têm sido apontados como fatores de risco para acidose e laminite em rebanhos leiteiros.
Então, escrevo este artigo para destacar os desafios que enfrentamos, bem como os nossos esforços para minimizar a acidose ruminal e a laminite de vacas leiteiras, ressaltar que a margem de erro em nossos programas de formulação de ração é pequena, bem como, para apontar os pontos de controle onde poderemos atuar.
Dieta de transição
Na prática, nada mais é do que aumentar gradativamente a proporção de concentrado na ração total, durante as ultimas poucas semanas do pré-parto, o que é uma prática comum. O consumo de quantidade excessiva ou mínima de concentrado durante o período seco pode aumentar o risco de acidose. Quantidade excessiva pode levar a riscos de acidose, mas é pouco provável devido ao baixo consumo de alimento nesta fase; também porque os produtores costumam ser econômicos com relação a quantidade de concentrado para vacas secas. Por outro lado, quantidade mínima também pode levar a acidose, uma vez que a falta de absorção de ácidos graxos voláteis pelas papilas ruminais e a adaptação dos microrganismos ruminais à alta quantidade de energia que será ingerida apos o parto.
Estresse calórico
A pesquisa já demonstrou baixo pH ruminal de vacas leiteiras quando mantidas em ambiente quente e úmido (30ºC e 85% de umidade relativa) de que de vacas em ambiente mais fresco (18ºC e 50% de umidade relativa), quando alimentadas com alta forragem (35% de grãos, pH de 6,1 vc 6,4) ou dietas de alto grão (65% grão, pH 5,6 vs 6,1), possivelmente devido à diminuição da atividade ruminal e redução da ingestão de alimento. Vacas sob efeito de estresse calórico selecionam a ração total em busca de aumentar a ingestão de partículas pequenas e concentrado, visando diminuir a ingestão de fibra e, com isso, a produção de calor proveniente do metabolismo. Por isso, existe uma recomendação para se aumentar a FDN fisicamente efetiva (aquela capaz de estimular a ruminação) e reduzir os carboidratos não fibrosos, visando reduzir os riscos de acidose. Assim, um manejo que otimize o conforto dos animais e minimizem o estresse calórico é um importante componente para a prevenção de laminite.
Aditivos
Existem muitos aditivos disponíveis para uso em dietas de vacas leiteiras visando minimizar a acidose ou laminite. A suplementação com monensina sódica é um exemplo que tem demonstrado bom funcionamento para aumentar a eficiência da produção de leite. A cetose sub-clinica foi reduzida em vacas em transição tratadas com cápsulas de liberação controlada de monensina. Também pode ser usada para prevenir acidose lática, demonstrando ser um produto interessante para reduzir acidose e laminite, embora mais algumas pesquisas sejam requeridas.
Aparentemente, a monensina mantém ou aumenta o pH de vacas leiteiras. Em confinamento de gado de corte, os animais aumentaram a frequência de alimentação e reduziram o tamanho médio da refeição.
O pH ruminal diminui após as refeições, e esta diminuição vai progredindo a medida que aumenta o tamanho das refeições e diminui a quantidade de FDN dietético. A suplementação com bicarbonato de sódio atenua a queda do pH pós-alimentação, e pode atenuar a acidose. A recomendação de inclusão de 0.7 a 1,0% da ração total tem sido genericamente utilizada.
Foi relatado que 20mg/vaca/dia de suplementação com biotina reduziu a laminite de vacas leiteiras, através da queratinização da epiderme do casco. A biotina não influencia a produção de ácidos graxos voláteis e a digestibilidade aparente no trato digestivo.
Também, existem relatos na literatura de que laminite pode ser decorrente da carência de alguns elementos minerais, como zinco, manganês, cobre e cobalto, pois eles também atuam na queratinização, conforme o descrito para a biotina. E por fim, alguns estudos foram feitos com leveduras muito específicas, como Lactobacillus plantarum, Enterococcus faecium, Megasphaera elsdenii e Propionibacterium, e demonstraram eficácia na atenuação da acidose, mas os trabalhos ainda são muito escassos e os dados não conclusivos.
Preparo da dieta
Grande variação nas concentrações de MS, energia e FDN podem ser observadas entre silos. Diferentes silos feitos na mesma propriedade certamente terão composição diferente. Isso enfatiza a importância do controle meticuloso da utilização do alimento, para minimizar a variação dos lotes, e para a obtenção de amostras representativas do que está sendo fornecido aos animais. Logicamente, esse controle somente é interessante em fazendas que fazem controle do manejo nutricional de forma bastante disciplinada, pois de nada adianta realizar analise bromatologica do alimento e contratar um excelente nutricionista para formular a ração, se ao alimentar, esse procedimento é feito usando uma pá-carregadeira de grande capacidade, mas de mínima precisão. Outra questão a ser avaliada é da utilização de silos "bag". Muitas vezes se tem variação na composição do alimento entre os silos, principalmente aqueles com históricos diferentes, como dia de colheita, condições climáticas, talhões diferentes, variedade, tamanho de partícula (máquinas diferentes para cortar), dentre outros fatores. Fazendas que utilizam grande quantidade e diversidade de subprodutos agroindustriais também deverão estar atentas as variações na composição destes. Portanto, em sistemas bastante ajustados, essa diferença poderá ser transferida para o concentrado, para o perfeito balanceamento da dieta.
Considerações finais
Podemos observar que dispomos de conhecimentos sobre manejo e nutrição de vacas leiteiras, bem como disponibilidade de produtos, capazes de atenuar consideravelmente os problemas de acidose ruminal e laminite. Manejo nutricional e investimento em conforto para os animais são requisitos chaves para minimização, ou mesmo eliminação do problema.
Fonte: Texto adaptado de notas de aula do Professor Dr Randy D. Shaver, da University of Wisconsin, Madison - EUA.
Autor:
Junio Cesar Martinez
Engenheiro Agrônomo pela UFMT e Doutor em Ciência Animal e Pastagens (Esalq/USP).

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