Gir Provado e Garantido - Entrevista com o pecuarista Léo Machado
Produzir leite com qualidade e sem elevar os custos. Foi essa fórmula que atraiu o pecuarista goiano Léo Machado para a criação de gir na década de 70. Ele resolveu trocar o rebanho holandês pela rusticidade dos zebuínos de aptidão leiteira. Hoje, a Fazenda Mutum - localizada no município goiano de Alexânia, nas proximidades de Brasília (DF)- produz quase dois mil litros de leite por dia. A decisão tomada há três décadas pelo criador é a mesma que produtores de outros países vêm seguindo. O gir é uma das raças mais procuradas pelos estrangeiros que visitam o Brasil. Nesta entrevista à revista ABCZ, Léo Machado fala sobre a volta das importações da Índia, critica a política adotada pelo governo para o setor agropecuário e os motivos que levaram o gir a ganhar destaque na pecuária mundial.
ABCZ: O governo brasileiro assinou acordo com a Índia para importação de embriões das raças zebuínas. Para o gir, o que essa medida pode representar?
Léo Machado: Na Índia, o gir é selecionado há séculos para produção de leite. A liberação da entrada de material genético do rebanho indiano irá contribuir para o rebanho brasileiro em relação ao refrescamento de sangue dos nossos animais. Com isso, evitaremos problemas futuros como a consangüinidade, que pode causar baixa fertilidade e queda na produção de leite, além de deformações físicas. Agora, em relação aos índices zootécnicos não acredito que haverá contribuição, pois os nossos índices são superiores aos de outros países.
ABCZ: Em contrapartida, outros países, estão interessados em importar a genética do gir brasileiro.
LM: Na minha opinião, o Brasil tem o melhor material genético de gir do mundo. A raça já mostrou que é ideal para regiões de clima tropical e isso tem atraído muitos criadores de outros países e continentes, em especial da África, América do Sul e da Ásia. Para os países que querem produzir leite saudável, o gir é a melhor opção. A raça tem menos infestações de ecto e endoparasitas ou incidência de doenças, do que as raças taurinas. Isso acaba resultando em um menor uso de carrapaticidas, vermífugose antibióticos, e, conseqüentemente, uma produção de leite livre de resíduos. Os estrangeiros também ficam impressionados com o alto teor de proteína e gordura do leite das fêmeas gir. Outro diferencial do Brasil é o investimento em programas de melhoramento genético consistentes que dão segurança ao criador durante o processo de seleção. Em alguns países não existe a preocupação com o aprimoramento da raça, o que acaba afetando o desempenho do rebanho.
ABCZ: O que tem levado ao crescimento da venda de tourinhos gir, inclusive para outros países?
LM: Em primeiro lugar, a credibilidade em relação à qualidade genética dos nossos tourinhos. Hoje, na hora de adquirir um reprodutor, o comprador tem acesso a dados importantes que atestam a qualidade reprodutiva do animal. É possível saber a produção oficial de leite da mãe e o PTA (Capacidade Prevista de Transmissão) para leite do pai. São informações presentes em sumários e testes de progênie, ferramentas que estão à disposição do produtor. O segundo ponto é que produzir leite no Brasil tem que ser a baixo custo. Essa é uma possibilidade que a raça gir, ou seus cruzamentos, é capaz de oferecer.
ABCZ: Ao longo da história do gir no Brasil, a raça viveu altos e baixos e hoje se encontra novamente em ascensão. Na sua opinião, o que contribuiu para essa nova fase?
LM: O Brasil vem de um histórico de importador de leite, apesar do potencial para tomar a balança comercial de lácteos superavitária. Além disso, os mercados interno e externo cobravam uma produção de leite saudável, com qualidade e economicamente viável. Todo esse cenário favoreceu a ascensão do gir, pois a rusticidade e adaptabilidade da raça permitem produzir leite de alta qualidade e a baixo custo. O terceiro ponto que alavancou o crescimento do gir foi o ganho genético que a raça teve durante os últimos tempos, graças às técnicas de reprodução como a TE (Transferência de embriões) e a FIV (Fecundação in Vitro), ao teste de progênie, sumários e ao controle leiteiro oficial feito por entidades competentes.
ABCZ: O fato da seleção da raça estar hoje mais definida em relação a sua aptidão (leiteira ou dupla aptidão) contribuiu para isso?
LM: Acredito que a maior contribuição foi a dos índices zootécnicos. Hoje temos bons índices para leite e também para a produção de carne.
ABCZ: Essa melhora dos índices zootécnicos passa pelo aumento da oferta de touros testados no mercado?
LM: Com certeza. Ninguém é bobo de trocar o certo pelo duvidoso. E vou mais adiante. O fato de termos touros provados para leite foi um dos motivos da ¬grande ascensão da raça gir. A demanda por material genético adaptado para produzir leite a pasto com qualidade vem crescendo. Os animais gir, de aptidão leiteira, foram responsáveis pela venda de quase 600 mil doses de sêmen no ano passado. Foi a raça leiteira que mais comercializou material genético. Em 2000, foram menos de 200 mil doses vendidas. O mesmo vem acontecendo nos leilões com médias mais altas. É um salto gigantesco que só aconteceu por causa do aumento de touros testados.
ABCZ: A Instrução Normativa 51 já entrou em vigor em vários estados. Qual é a expectativa dos criadores em relação ao sistema de pagamento por qualidade?
LM: Na verdade, não acredito que a remuneração irá aumentar por causa da boa qualidade do leite e, sim, diminuir quando essa não for muito boa. Porém, as determinações da Instrução Normativa devem tomar o leite brasileiro mais competitivo no exigente mercado internacional. Minha esperança como criador é que a produção de leite de alta qualidade eleve as exportações de lácteos. Só assim acredito que o produtor rural terá a chance de ser melhor remunerado pelo mercado.
ABCZ: O senhor começou criando holandês na década de 70. Por que resolveu investir apenas em gir para a produção de leite?
LM: No final da década de 70, importamos gado holandês do Uruguai, Canadá e Chile. O custo de produção era muito grande. Na seca até que dava para cobrir as despesas, porém no período chuvoso, quando a remuneração do leite é menor, a atividade entrava no vermelho. Então surgiu a necessidade de produzir leite a baixo custo. Daí a escolha pelo gir. Hoje, a fazenda tem produção média de 1.800 litros de leite por dia mesmo estando localizada em uma região de clima quente, como é o caso de Alexânia, em Goiás.
ABCZ: O produtor de leite está sendo melhor remunerado?
LM: Tivemos melhores preços entre janeiro e junho. Com a abertura de novos mercados para a exportação de leite, o setor conseguiu resolver o problema do excesso de leite no período das águas, que acabava provocando baixa acentuada dos preços pagos ao produtor. Em função disso, o criador pôde receber um pouco mais no primeiro semestre. Agora, durante a seca, os custos aumentaram. Estamos vivendo um período de câmbio desfavorável e já existe por parte dos laticínios a sinalização da baixa de preços no curto prazo. Infelizmente o preço está caindo e, para variar, o governo tem culpa nisso.
ABCZ: Os produtores rurais fizeram vários protestos este ano contra as políticas adotadas pelo Governo. No caso da pecuária leiteira, quais seriam os principais problemas enfrentados?
LM: O maior problema é a falta de incentivos por parte do governo para elevar a produção leiteira. Sofremos com a elevadíssima carga tributária, que tira boa parte de nossa competitividade. Se não é possível ajudar, então que não atrapalhe. Quando o mercado está começando a melhorar, vem o governo e libera a importação de lácteos. Mesmo assim, o produtor tem tentado driblar essas dificuldades e tomar-se competitivo, até por uma questão de sobrevivência. Prova disso é que a produção brasileira de leite tem crescido anualmente. Para conseguir fazer da pecuária leiteira uma atividade rentável, precisamos diminuir custos, procurar agregar valor ao rebanho investindo em genética e interagir com os demais elementos da cadeia produtiva buscando soluções globais.
ABCZ: Quais as principais diferenças entre os critérios de seleção adotados pela Fazenda Mutum há três décadas e as aplicadas hoje em seu rebanho?
LM: Antigamente, a seleção era muito difícil e morosa. Selecionavam-se as melhores vacas de leite e acasalava com os touros filhos dessas melhores vacas, porém a segurança não era tão grande. Não se tinha certeza se o touro transmitia a suposta “PTA” para leite. Havia também um grande número de descartes. Por exemplo, comprava-se 100 vacas para aproveitar 15 a 20 animais. O resto era descartado. Hoje, com os controles leiteiros oficiais e as técnicas de reprodução como a FIV e TE, os animais superiores são melhor aproveitados e o tiro é mais certeiro.
Fonte: Entrevista feita por Larissa Vieira e publicada na Revista ABCZ, Set/Out de 2005.


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