Ideias equivocadas sobre os alimentos lácteos: uma revisão das evidências - Parte 1/2
Introdução
Apesar do papel benéfico dos alimentos lácteos em uma dieta saudável estar bem estabelecido por comunidades científicas e relacionadas à nutrição (1,2), as ideias equivocadas sobre esses alimentos continuam surgindo. O ambiente multimídia de hoje aumenta as oportunidades para informações equivocadas levando a conceitos errados sobre os alimentos em geral (3). A maior conscientização dos consumidores sobre a ligação entre nutrição e saúde e seu interesse em assumir mais responsabilidade por seus hábitos alimentares pode aumentar sua vulnerabilidade a conceitos errados sobre os alimentos (3). A internet pode contribuir para confusão do consumidor e para ideias equivocadas sobre os alimentos, inclusive os lácteos, porque sites com informações baseadas em ciência co-existem com aqueles contendo informações questionáveis ou imprecisas de fontes não qualificadas (3).
Conceitos errados sobre alimentos lácteos podem resultar em eliminação desnecessária desses alimentos da dieta que, por sua vez, pode levar à ingestão inadequada de nutrientes, maior risco de certas doenças crônicas e desgaste na imagem de saudável dos alimentos lácteos. Os alimentos lácteos como leite com baixo teor de gordura, queijos e iogurte são alimentos ricos em nutrientes, fornecendo cálcio, potássio, além de outros minerais e vitaminas e proteínas essenciais para o crescimento e desenvolvimento (4,5). O Guia Dietético para Americanos de 2005 reconhece os alimentos lácteos como um "Grupo de Alimentos a serem Encorajados" (5). Estudos com crianças e adultos indicam que o consumo de alimentos lácteos melhora a qualidade nutricional geral da dieta (5-8).
Esse artigo identifica alguns dos conceitos errôneos referentes aos alimentos lácteos e fornece descobertas de pesquisas com embasamento científico que contestam esses conceitos errados.
Ideia equivocada: leite com sabor, devido a seu teor de açúcar, não é uma bebida saudável para crianças.
O que diz a ciência: Mesmo o leite com sabor tendo um pouco de açúcar adicionado, estudos mostram que crianças que bebem esse produto consomem mais leite de forma geral, suprem mais suas necessidades de nutrientes, não consomem mais açúcar adicionado ou gordura e não são mais pesadas do que as crianças que não consomem leite (9-11). Assim como o leite puro, o leite acrescido de sabor fornece nove nutrientes essenciais - cálcio, potássio, fósforo, proteína, vitamina A, D e B12, riboflavina e niacina (equivalentes a niacina) (4). Além disso, o leite com ou sem sabor fornece de três a cinco nutrientes que são escassos nas dietas das crianças (como cálcio, potássio e magnésio) (4,5).
Crianças que bebem leite com sabor tendem a beber mais leite de forma geral do que as que não bebem leite com sabor (9). O leite com sabor, a maioria sendo com baixo teor de gordura, é a escolha mais popular entre as crianças em idade escolar, consumido por 66% dos consumidores de leite nas escolas durante o lanche (12,13). Um estudo recente mostrou que a remoção do leite com sabor de uma escola em um distrito de Connecticut resultou em uma redução no consumo de leite de 37% a 63%, dependendo do nível de ensino (14), o que pode ter uma piora na qualidade da dieta como consequência (7).
Leites com baixo teor de gordura (desnatado ou semi-desnatado) com acréscimo de sabor têm menos açúcar adicionado e mais nutrientes do que refrigerantes adoçados com açúcar. Em média, uma porção de 8 onças (226,8 gramas, aproximadamente) de leite desnatado com chocolate contém cerca de 4 colheres de chá de açúcar, enquanto uma quantidade equivalente de refrigerante contém cerca de 7 colheres de chá de açúcar. Alguns açúcares naturais (a maioria na forma de lactose) e adicionados, sendo nutritivos (como sacarose, xarope de milho rico em frutose - HFCS) ou não nutritivos, dependendo da marca, são encontrados em leites com sabor. A composição do HFCS é de cerca de 55% frutose e 45% glicose, o que é muito similar à sacarose, comumente conhecida como açúcar de mesa (50% glicose e 50% frutose) (15,16). Ambos os açúcares têm o mesmo número de calorias, a mesma capacidade de adoçar e são metabolicamente similares (15). Apesar de algumas alegações relacionando o HFCS com obesidade, revisões científicas conduzidas pela Associação Médica Americana indicam que o HFCS não parece levar à obesidade ou outras condições mais do que as calorias de outros adoçantes calóricos (17).
Apesar de o açúcar poder contribuir para o risco de cáries dentárias, vários fatores (como tempo que o açúcar permanece nos dentes) influenciam o grau de risco de cáries de um alimento ou bebida. Não existem evidências científicas que indicam que o consumo de leite com sabor causa cárie dentária (18). A Academia Americana de Odontopediatras afirma que "o leite com chocolate é permitido para os dentes das crianças" (19). Também não existem evidências científicas de que os açúcares adicionados no leite com sabor causam hiperatividade, outras desordens comportamentais ou interferem no desempenho acadêmico das crianças (20-22).
O Guia Dietético para Americanos de 2005 (5), o Instituto de Medicina dos Estados Unidos (23) e várias organizações profissionais de saúde norte-americanas, como Academia Americana de Pediatras (24,25), Associação Dietética Americana (20) e Associação Americana do Coração (AHA) (26) suportam a inclusão de leite com baixo teor de gordura acrescido de sabor nas dietas de crianças e adolescentes. Segundo a AHA, "quando açúcares são adicionados a alimentos ricos em nutrientes, como produtos lácteos adoçados com açúcar, como é o caso do leite acrescido de sabor e iogurte, a qualidade da dieta das crianças e adolescentes melhora e, no caso das bebidas com sabor, não foram encontrados efeitos adversos no status de peso" (26).
Ideia equivocada: o consumo de leite causa puberdade precoce em meninas.
O que diz a ciência: Não existem evidências científicas conclusivas que suportam a sugestão de que o consumo de leite causa puberdade precoce em meninas. Apesar de estudos recentes sugerirem um decréscimo na idade de início da puberdade em meninas nas últimas décadas (27,28), as razões por trás dessa tendência são desconhecidas. Vários fatores - condições socioeconômicas, fatores fisiológicos (por exemplo, estresse), status nutricional, qualidade da dieta, doenças crônicas, peso ao nascimento e crescimento precoce pós-natal - foram examinadas para esse efeito no momento de início da puberdade (29-32). Vários estudos relacionaram maior índice de massa corpórea ou maior gordura corpórea em garotas com início mais precoce ou progressão do desenvolvimento da puberdade (27,28,33-35).
Não existem evidências científicas que apoiam a teoria de que os hormônios no leite ou o leite de vacas tratadas com o hormônio sintético, somatotropina recombinante bovina (rbST), tenham um papel no início precoce da puberdade em meninas. Todos os leites, incluindo o leite humano, contêm quantidades mínimas de hormônios (36). Apesar de alguns produtores de leite tratarem suas vacas com rbST para aumentar a produção de leite de seu rebanho, esse hormônio sintético não é adicionado ao leite e a composição do leite de vacas tratadas e não tratadas com hormônio é a mesma (37). A Administração para Alimentos e Drogas dos Estados Unidos (FDA, da sigla em inglês) (37), baseada em uma revisão de evidências científicas, afirma que o leite de vacas tratadas com rbST é seguro para consumo humano (37).
Uma observação argumentando contra a teoria de que o leite está relacionado à puberdade precoce é que o consumo de leite pelas crianças tem decrescido (e não aumentado) nas últimas décadas, período que coincide com o início mais cedo da puberdade em garotas (28,38). O consumo de duas a quatro porções, dependendo da idade, de leite com baixo teor de gordura ou produtos lácteos com quantidade equivalente de leite todo dia é especialmente importante para crianças e adolescentes que estão atingindo seu pico de massa óssea (5,25).
Ideia equivocada: a ingestão de leite causa acne.
O que diz a ciência: De acordo com a Academia Americana de Dermatologia, pesquisas feitas até agora não provam que a dieta causa acne (39). A acne é a doença de pele mais comum nos Estados Unidos, afetando 70% a 87% dos adolescentes, apesar de poder afetar todos os grupos etários (39-41). Múltiplos fatores genéticos e ambientais, inter-relacionados (como estresse fisiológico, exposição a poluentes ambientais, dieta) foram implicados no desenvolvimento de acne (40).
Alguns estudos observacionais recentes descobriram uma associação entre o consumo de leite, particularmente leite desnatado, e o maior risco de acne na adolescência (42-44). Esses estudos somente sugerem uma correlação, não uma relação de causa e efeito (41,45). Além disso, esses estudos têm limitações severas, incluindo a parcialidade na seleção, falha em considerar uma série de fatores que podem confundir os resultados, auto-informação sobre acne, e, no caso de um estudo (42), recordação potencialmente imprecisa sobre o consumo de alimentos nove anos antes (39,41,42,44,46). Mais pesquisas, particularmente estudos aleatórios bem controlados, são necessárias para confirmar se alimentos e/ou constituintes da dieta têm um efeito direto nos riscos e na severidade da acne (39,41,45). Pessoas preocupadas com acne devem consultar um dermatologista para um tratamento apropriado (40). Devido a sua abundância de nutrientes, os alimentos lácteos são particularmente importantes para a saúde dos ossos e a saúde geral dos adolescentes. Sendo assim, o consumo de três porções de leite desnatado, queijos ou iogurte todos os dias deve ser estimulado (5).
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Baseado no artigo "Misperceptions Regarding Dairy Foods: A Review of the Evidence", do National Dairy Council (http://www.nationaldairycouncil.org) - Dairy Council Digest Archives, Volume 81, Número 1 Janeiro/Fevereiro de 2010.
Autora:
Juliana Santin
Médica veterinária pela FMVZ/USP e mestranda pela ESALQ/CENA/USP

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